ARTIGO DE OPINIÃO - "PRAÇA DAS MEMÓRIAS"

Hoje é dia de estréia no blog do Pólo de Leitura "Sou de Minas, Uai". A sessão intitulada "Artigo de Opinião" nasceu com a proposta de ser um espaço de interação, portanto fique a vontade para entender aqui a "opinião" como liberdade para demonstrar sua visão sobre o livro, a leitura e a escrita, seja através de um conto, uma crônica, uma poesia, uma frase, um caso... A colaboração de hoje vem através de uma crônica escrita por Adriane Assis, assessora de comunicação do Pólo. Sua narrativa faz um flerte com a poesia e nos leva a um passeio por lugares familiares a muitos belohorizontinos. Confira abaixo:


"PRAÇA DAS MEMÓRIAS"

Naquela época eu não tinha muita ideia de onde ficava cada coisa. Morava no centro de Belo Horizonte, no alto da Avenida Afonso Pena e o trabalho do meu pai era no bairro Lagoinha.

Foi em 1985, eu tinha sete anos e depois da escola papai costumava me levar pro trabalho dele, nas semanas que minha mãe viajava pra visitar a vovó.

Como qualquer criança curiosa, da janela do carro eu tentava decorar o nome dos edifícios e ruas. Do caminho de casa até o destino, fascinava-me com um determinado lugar, onde mais que as outras ruas, as calçadas eram cobertas de gente. Gente de lá pra cá e daqui pra lá. Gente de todo tipo; feia, bonita, rica e pobre. Pessoas trabalhando, outras apenas se divertindo. Tabuleiros de dama, xadrez, palhaços, apitos e bandeiras, muitas bandeiras. 
Mas o que mais despertava atenção era um monumento, que na época eu chamava de ‘troço’ e meu pai nomeava ‘Pirulito’. Minha visão de pirulito era outra. Talvez pudesse ser um pouco mais colorido, estendido com uma haste de madeira, não importa. As respostas do meu pai pras minhas perguntas nunca foram suficientes. “Por que ele fica no meio da rua?” “Quem fez?” “Por que ele chama pirulito?”

Cansado, papai respondia completando que ali era o centro de Belo Horizonte, e aquela região ocupada pelo Pirulito chamava-se Praça Sete de Setembro. Disse também que quem chegava à ‘Praça Sete’ nunca estava perdido. Ela era o ponto inicial e o ponto final pra muita gente. Local de encontros e despedidas. Gravei aquele lugar.

Um ano depois as coisas aconteciam do mesmo jeito e o caminho de casa até a Praça Sete era rotineiro. Meus pais me levavam e buscavam na escola e a aparência daquele lugar já não me fascinava tanto.

Foi quando aos nove anos, no início da minha desobediência, resolveram meus amigos que não esperariam seus pais na porta da escola e voltariam sozinhos pra casa; como meninos crescidos que eram. Eu que sempre fui criado debaixo das asas de meus pais nunca havia andado sozinho. Naquela idade, em hipótese alguma eles me deixariam passear por BH sem a companhia de um parente adulto. Sem pensar duas vezes e também por influência dos coleguinhas, saí sorridente da portaria do colégio que ficava no bairro Prado.

Sentia-me livre. Parei em uma banca de revistas. Enquanto minhas mãos dedilhavam alguns gibis, meus olhos percorriam as revistas adultas. Logo depois fiquei a observar um cachorro que furava a terra de uma pracinha; parecia que estava caçando um osso, mas abocanhou uma boneca velha em meio ao vermelho do chão. Segui olhando vitrines e admirando uma linda menina que ao que me parecia, aguardava a chegada de alguém. Andei por mais alguns minutos. Até que comecei a entrar por ruas e sair no mesmo lugar. Foi alegria seguida de solidão. Eu que só sabia como chegar à padaria mais próxima da minha casa, estava perdido e já nem sabia como voltar pra escola.

Até que depois de muito andar, não imaginava que havia se passado tanto tempo, caminhava por duas horas. Estava cansado, com fome e arrependido. Com alguns centavos no bolso resolvi esperar um ônibus. Qualquer coisa que me levasse pra mais perto de casa. Perguntei ao ‘trocador’ onde eu estava e desci no ponto próximo de um tal Mercado Central.

Resolvi subir algumas ruas, desci outras, passei pela rua Curitiba, virei na Tamóios, subi a rua São Paulo... Até descobrir que as ruas da cidade tinham nomes de tribos de índios e de cidades do Brasil. Depois de um tempo andando, avistei um movimento familiar, alguns apitos... “Foto na hora, foto!”, “Dentiiiista!”. Levantei meu olhar e avistei o Pirulito.

Estava na ‘Praça Sete’. 
Encontrei o caminho de casa.

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